terça-feira, 11 de agosto de 2015


MULTIFACES

Tão linda e envolvente
uma ilusão me convida,
Pega minha mão, sorridente
e me arrasta pela vida...

No meio de sua festa louca
ela me faz acreditar no que desejo,
Inunda minha boca
com a saliva de seu beijo...

Mas o que eu tanto quero se vai
por entre meus dedos...
Um cristal que cai
revelando os seus segredos...

Tantos passam uma vida procurando
os segredos revelados a mim,
Por isso não posso seguir acreditando
em suas multifaces, enganações sem fim...

Ela é a realidade falsa e louca
que pisou, esmagou meu coração,
Escarrou em minha boca
e me entregou à solidão.

Jorge Floriano.

terça-feira, 7 de julho de 2015


IRREVERSÍVEL

Não há para onde ir
O caminho se fecha diante dos meus olhos,
A luz se apaga
E a escuridão lambe a minha face fria,
Minha alma grita
Caindo numa vala desconhecida e vazia,
Não há como voltar
O fim é tão certo e irreversível,
O frio começa me abraçar
Meu corpo se entrega ao gelo da senhora sem face,
E a senhora me leva pelas mãos
Por uma estrada fria que avança pela escuridão.


Jorge Floriano.

segunda-feira, 18 de maio de 2015


LUZ MATERNA

Essa luz que como o sol brilha,
Essa luz que brota de seu olhar
É tão penetrante que minh’ alma se maravilha
É tão intensa que tende a me guiar.

Essa luz ilumina meu caminho,
Apesar de minha fragilidade, me sinto forte
Suporto os mais dolorosos espinhos,
Nem mesmo temo a morte.

Eu a chamo de luz materna,
Divina, gloriosa magia,
Tão breve, mas eterna
Nas gerações do infinito dia.

Mãe, minha mãe
Mulher filha de Deus,
Mãe, minha mãe
Luz dos dias meus.

Nem mesmo o sofrimento pode apagar
Esse majestoso brilho,
Mãe, como é lindo seu olhar...
Iluminando os passos deste poeta: seu filho.

Jorge Floriano.

sexta-feira, 3 de abril de 2015


MUNDO CINZENTO

O verde das florestas
O azul do céu e do mar
O ardente brilho solar
Até quando poderemos ver,
Até quando pode durar,
Pois tudo começa a morrer,
Oh! Deus, não deixe tudo acabar...

Vejo o verde se transformando em cinzas
As águas azuis agora são negras
Cores da destruição
Cores da morte,
Parece um terrível pesadelo
Mas estamos acordados
É real demais, posso ver
Isso tudo me faz tremer...

Oh! Deus, não consigo entender
Tudo o que está acontecendo
A própria humanidade se destruindo
Oh! Deus abra nossos olhos, faça nos ver...

Amanhã será tarde demais
Tudo estará acabado,
Não veremos animais,
O sol terá se apagado,
Será um mundo cinzento
Onde o homem é o único
É o único culpado.

Jorge Floriano.

domingo, 1 de fevereiro de 2015


DUAS FACES                          

É tão real
O bem e o mal 
O alívio e a dor
O ódio e o amor.

Faz parte do sonho
O pesadelo medonho
Claro e escuro
O passado, o presente e o futuro.

Há uma face oculta
A existência tão curta
O azar e a sorte
A vida e a morte.

Jorge Floriano.


sábado, 10 de janeiro de 2015



VALE ESCURO E FRIO

O sol brilha no firmamento intensamente
lançando seus raios sobre a terra,
mas há um vale tão escuro e frio,
onde rastejam terríveis serpentes
destilando o veneno do ódio e da guerra
derramando vinho tinto  diante de um cálice vazio.
Serpentes possuídas pelo mal
rastejando sobre o leite e o mel
deixando  o gosto azedo
espalhando o gosto do fel.
O cálice do tinto sangue exposto ao mundo
manchando o solo e as páginas da história,
marcando  um tempo bestial em cada alma,
Gritos que ecoam num vale profundo
devorados pelo silêncio medonho
que cobre toda luz e nunca se acalma,
Anjos inertes espalhados pelo chão,
olhos e lábios cerrados para sempre
sem poder realizar os  sonhos,
devorados pela escuridão.
Falta amor naquele vale escuro e frio
rasgado pelas garras afiadas da insensatez
 que dilacera corpos e almas  explicitamente.

Há tanta dor naquele vale escuro e frio
dominado pela boca sedenta do mal
que toma o vinho tinto da vida constantemente.
Assim é aquele vale:
Terrível,
Caótico e real...
Cenário bestial.

Jorge Floriano. 


Publicado no Livro: "Anuário Poético de Língua Portuguesa"

THS Editora
Editor: Lelé Arantes
Projeto Original: Lelé Arantes
Editoração Eletrônica: Kamila K. Tagliaferro
Capa: Moisés Jr.
Desenho da Capa: Maria Antonia Ferreira Arantes
Secretário: Ésio Silveira Junior
Parceiros:
Academia Rio-pretense de Letras e Cultura ( ARLC )
Academia Rio-pretense Maçônica de Letras
Instituto Cultural Jocelino Soares
Secretaria Municipal de Cultura
Sugaring - Delícias e Gostosuras
Alexandre Costa, secretário municipal de cultura
Antonio Carlos Del Nero, presidente da ARLC
Eduardo Carlessi, chef confeiteiro.




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014



A OUTRA FACE DO NATAL

Era noite de Natal...
No alto dos edifícios, as luzes coloridas contornavam figuras natalinas. Eram pinheiros, sinos, estrelas; tudo que lembra o Natal. Entre a bela decoração, crianças famintas reviravam latas de lixo, disputando restos de alimentos com os cães...
Numa rua próxima à igreja da redentora, João Messias, um mendigo, caminhava com os olhos banhados em lágrimas.
Sentou-se na calçada, cobriu as pernas com alguns jornais velhos, encostou-se no muro e ficou olhando para a enorme casa a sua frente.
No quintal, havia um Papai Noel de gesso iluminado por uma luz vermelha. E, ao lado da janela, um pinheiro com uma estrela no seu ponto mais alto.
De toda a decoração, o que realmente chamou a atenção de João Messias foi o Papai Noel. Ele não tirava os olhos úmidos dele.
Depois de algum tempo, saiu da casa um jovem com uma sacola nos braços. Ele aproximou-se de João Messias e disse:
_ Vi-o através da janela e trouxe algumas coisas para você comer. Aqui tem panetone, um pedaço de peru, algumas frutas e refrigerante.
_ Obrigado, meu jovem! - agradeceu João Messias, pegando a sacola.
_ Posso sentar-me um pouco? - perguntou o jovem.
_ Claro, fique à vontade!
O jovem sentou-se, dobrou as pernas elevando os joelhos, apoiou os braços sobre eles e perguntou:
_ Como você se chama?
_ João Messias. E você?
_ Eu me chamo Marcelo!
Há quanto tempo você mora nessa casa? - perguntou João Messias, com os olhos fixos no Papai Noel de gesso.
_ Desde que nasci, exatamente há vinte e cinco anos.
_ Sempre passa as noites de Natal em sua casa?
_ Sim. Eu, meus pais e meus três irmãos. Mas esta noite meu pai não está presente para ceiar conosco. Sem a presença dele, o Natal não será tão feliz para nós.
_ Por que seu pai não está presente?
_ Por que ele viajou a negócios e só voltará no dia vinte e sete.
Marcelo, você ainda tem uma família! Já parou para pensar quantas pessoas não a tem?
Marcelo olhou nos olhos de João Messias e notou que a tristeza descia-lhe pelo rosto em forma de lágrimas.
_ Desculpe- me. Eu aqui me queixando da ausência de meu pai, enquanto você aguarda sozinho e triste o amanhecer.
_ É, eu não tenho escolha, pois não tenho mais ninguém. Mas houve um tempo em que eu fui feliz ao lado de minha família. Comemorávamos o Natal sempre juntos. Montávamos a árvore na sala, decorando-a com luzes, sinos, bolas coloridas, miniaturas de Papai Noel e estrelas douradas. E preparávamos a mesa para a ceia. Tudo era divino e maravilhoso como é com toda família cristã. Mas desde meus doze anos, quando perdi minha família, o Natal deixou de existir para mim.
_ Como perdeu sua família?
João Messias enxugou as lágrimas com uma velha camisa e disse entre soluços:
_ Tudo aconteceu numa noite de Natal... Estávamos reunidos para a ceia: eu, meus pais e meus seis irmãos... Pedi licença e fui ao meu quarto buscar uma mensagem que eu havia escrito... Ouvi uma rajada de metralhadora. Corri até a sala e vi minha família, morta no chão. O choque foi tão grande que meu coração parecia que ia estourar no peito... Fui até a porta e vi um homem, usando uma roupa de Papai Noel, afastando-se com uma metralhadora na mão. Ele dizia entre gargalhadas: “Feliz Natal a todos, feliz Natal”.
_ Quando viu o assassino se afastando, o que você fez? - perguntou Marcelo, com um tom de revolta na voz.
_ Não consegui fazer nada. Minhas pernas estavam trêmulas e meu cérebro bloqueado pelo choque, perdido diante de tanto terror... 
Depois saí vagando pelas ruas da cidade.
_ Se você ao menos tivesse visto a cara do assassino, mas usando um gorro e uma barba de Papai Noel...
_ Eu sempre soube quem é o maldito assassino - interrompeu João Messias. Só existem duas criaturas que possuem as gargalhadas e a voz que ouvi naquela noite: uma é o diabo, a outra o assassino.
_ Se sempre soube, por que não fez nada?
_ Porque ele receberá o mesmo presente de Natal!
_ Você pretende matar a família dele?
_ Eu não! Papai Noel fará isso para mim.
_ Você está ficando louco?
João Messias sacudiu a cabeça de um lado para outro, esbugalhou os olhos e disse:
_ A loucura habita em todos. Muitos se consideram lúcidos por ela estar adormecida. Mas, diante de tantas atrocidades, ela desperta e vem à tona.
Marcelo, disfarçando o medo que começava a possuí-lo, levantou-se e disse:
_ Preciso ir agora, João Messias! Minha mãe e meus irmãos estão a minha espera!
_ Tudo bem, Marcelo! Feliz Natal, para você e sua família!
_ Feliz Natal para você também! - disse Marcelo, saindo em seguida.
João Messias deu uma última olhada no Papai Noel de gesso e deitou-se beirando o muro.
No dia seguinte, havia algumas pessoas na frente da casa de Marcelo. Estavam agitadas e falavam sobre o que havia acontecido: o jovem Marcelo, seus três irmãos e sua mãe encontravam-se mortos sobre o carpete da sala.
Foram assassinados a tiros ao lado da mesa, preparada para a ceia de Natal.
Do outro lado da rua, sentado na calçada, ao lado de uma velha roupa de Papai Noel, João Messias observava as pessoas que chegavam ao local.
No final da rua, uma criança arrastava uma faixa escrita em vermelho: “Feliz Natal a todos, feliz Natal!”

Jorge Floriano.

                                          


Publicado no livro: "CONTOS DE NATAL"
Editora: Rio-pretense - 1999.
Projeto Gráfico, Organização e Edição: Lelé Arantes.
Capa: Amândio F. Matinez Dias Jr.
Quadro da capa : Orlando Fuzinelli.
Revisão: Mirna de Lima Soares.
Editoração e Diagramação: David Rahd Neto.
Digitação: André Luiz Nogueira da Cruz.